A caminho de uma nova terra, retirei do fundo do armário a mala
velha do período de férias. Aquela era a mala querida que agora
carregaria meus sonhos, meus medos, minha fé rejuvenescida,
algumas lembranças dos meu amigos e do meu irmão Miguel, a coragem
e a determinação, minha humildade, as pequenas coisas cheias de
signifi cado, meus princípios, fotos de momentos que marcaram como o
dia em que eu e papai fomos ao parque de diversões,a pequena concha
com a pérola que eu havia encontrado na caixa do girassol, minha responsabilidade,
um espelho, algumas roupas, aqueles livros inseparáveis
(inclusive o Fernão Capelo gaivota), minhas raízes e minha esperança.
Seria difícil carregar aquela mala, ela estaria muito pesada. Nela eu
carregaria meu único tesouro: a minha vida.
Saí puxando todas as minhas coisas e parei na porta do quarto.
Olhei para trás, e ao vê-lo vazio de lembranças foi como se também
lançasse um olhar a todo meu passado. Via muitas lágrimas choradas
naquele travesseiro, lembrava de brincar naquele tapete, sorrir ao telefone...
Levava comigo apenas o que podia carregar: passado, amor e
entrega. Tudo que não era necessário fi cava para trás. O quarto simbolizava
o palco de uma história que tinham escrito por mim, e agora o
mundo seria o palco da história que eu estava prestes a escrever.
Tudo tinha passado muito rápido. Parecia que a Dona Maria me
entregara o diário no dia anterior. Em pouco mais de um ano quanta
coisa havia acontecido... A chacina que matara Miguel, a saudade que
sentira dele e da mamãe, o fracasso no vestibular, a descoberta da minha
liberdade e a minha aceitação pessoal, as intermináveis brigas com meu
pai, as aulas do cursinho, a aproximação com a minha família, os trabalhos
sociais e pastorais, o sentido que eu descobrira para a vida, o valor
que eu aprendera a dar às coisas e pessoas importantes...
Em algumas horas eu estaria embarcando para a Amazônia. Era
um novo caminho a ser trilhado, uma nova história: dessa vez a minha.
Verdadeiramente um novo tempo.
Eu só não havia lido uma página do diário do Miguel. Uma página
que eu guardara especialmente para aquela ocasião. Sentei em cima da
mala mesmo, no próprio corredor, e me pus a fazer uma última viagem
ao passado do meu irmão.
Hoje, o grupo se reuniu na casa da Sol para assistir
a um filminho...
No final, resolvemos sair um pouco, a noite estava
bem quente, sentamos na lanchonete e nos pusemos ao
debate. Opiniões diversas, sensações diferentes... É por
isso que adoro fazer esse tipo de programa com eles, um
simples filminho toma uma aspecto grandioso e a gente
acaba aprendendo mais sobre a própria vida.
Mas, numa coisa todos concordamos, jamais esqueceríamos
aquela frase: “Tudo é possível, exceto deixar de sentir”.
Concordávamos com a verdade daquelas palavras, deixar
de sentir era impossível, só não tínhamos certeza se todas
as outras coisas eram possíveis... A vida da maioria
de nós era difícil demais para acreditarmos nisso assim,
tão impunemente. Entretanto, nos beneficiamos da
dúvida... Ela já nos garantia um pouco de esperança
A partir disso, começamos a partilhar nossos sonhos
mais impossíveis. O Jorge queria morar numa casa
enorme, que tivesse um quarto para cada um dos seus
sete irmãos. A Sol queria construir uma casa para a
formação de uma juventude diferente.
Assim foi passando o tempo, cada um desfiando seus
sonhos. Eu dizia que queria mudar a vida de uma pessoa
só, todo mundo me zoou, afinal eu podia escolher
mudar o mundo... Naquele momento tudo era possível.
Sabe que eu fiquei meio tímido diante da minha ineficácia
em sonhar?
Mas, apesar de saber que todas as outras coisas
eram possíveis, eu tinha a certeza de que mudar a vida
de uma pessoa só já seria suficiente.
Mesmo assim, a galera não sossegou e me fez prometer
que eu iria pensar em outra coisa que realmente quisesse
e que fosse potencialmente impossível! Promessa feita.
Quando eu senti que estava chorando, sabia que aquelas seriam as
últimas lágrimas que derramaria diante do diário. O Miguel tinha conseguido
realizar seu maior sonho. Ele tinha mudado a minha vida.
Desci as escadas tentando memorizar cada aspecto do apartamento
naquele dia. Queria levar cada uma daquelas imagens comigo. Quando
cheguei à sala encontrei com a Sol e a Sofi a sentadas chorosas no sofá.
Elas já tinham preparado uma festa de despedida para mim no dia anterior,
só que não deviam ter se agüentado e acabaram aparecendo lá
em casa naquele dia também. A festa tinha sido linda... Todos os meus
amigos do cursinho, o meu pai e até os meus amigos antigos da escola
estavam lá... Tive direito à celebração e tudo.
A Sol me deu um grande abraço e me entregou uma medalhinha
de Santa Paula. Disse-me para pedir sempre àquela mulher pela qual eu
tinha me apaixonado que me protegesse e me iluminasse nos bons e nos
maus momentos...
Sol tinha se tornado uma grande amiga, seria para sempre minha
fortaleza e meu ombro amigo.
Sofi a, aos prantos, exagerada como sempre, me deu um beijo e um
abraço sem fi m... Parecia que ela queria se agarrar a cada momento
como se fosse o último. Quando conseguiu se acalmar, tirou da bolsa
uma Bíblia e me deu. Pediu para que eu usasse esse alicerce sempre e
que eu permitisse que a sabedoria existente nela se fi zesse presente em
todos os meus dias. Insistiu na idéia de que eu, como o educador que eu
me tornara, deveria usar seu presente como base e caminho para formar
novos jovens prontos para enfrentar o mundo, sem qualquer tipo de
medo ou receio de serem capazes de construir a sua própria história.
Olhei para o relógio. Aquela melação toda, da qual estava gostando
tanto, estava me atrasando. Dirigi-me à porta e dei de cara com meu
pai. Ele também tinha um presente em mãos, não se contentando em
já ter me enchido de coisas durante a última semana. Pediu para que eu
só abrisse aquele no táxi.
Eu também tinha que entregar duas coisas a ele: a chave da caixa do
girassol e o diário do Miguel, do qual ele agora precisava mais do que
eu. Ele seria a primeira pessoa depois de mim que teria contato com
as histórias que me fi zeram crescer tanto, antes mesmo de elas serem
publicadas.
O velho estava muito engraçado. Fazia uma força tão grande para
não chorar na frente das meninas que chegava a ser ridículo... Tinham
coisas que não haviam mudado muito nesse último ano.
Descemos todos juntos o elevador e eu dei mais um abraço em cada
um antes de entrar no táxi.
Fiquei olhando os três pela janela até que o carro virasse a esquina.
Era o fi m de uma era. Um tempo que deixaria marcas e saudades.
Abri o presente que meu pai me dera. Era um livro preto, todo
em branco. Na primeira página, com a letra do meu pai estava escrito
“Diário”. Fiquei surpreso, mas tonto de felicidade. De onde será que
ele tinha tirado tanta sensibilidade para pensar em um presente como
esse? Era genial!
Eu agora teria a oportunidade de escrever a minha própria história.
Uma história na qual eu era independente e protagonista, ninguém a
escreveria por mim.
O diário só precisaria de um título. E quando eu avistei o aeroporto
se aproximando eu só consegui pensar em um, um título que resumia
tudo pelo que eu havia passado no último ano e iria enfrentar dali para
frente.
Peguei no meu bolso a caneta que há muito pertencera à minha
mãe e escrevi na contracapa com a maior letra que pude:
Abri o coração à maiores esperanças.